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Transplante raríssimo faz paciente brasileiro viver 45 dias com dois corações

Para alguns pacientes com problemas de coração, uma cirurgia para transplantar o órgão pode ser extremamente arriscada e, em determinados casos, acaba por não ser recomendada. Nesse cenário, o Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) realizou um transplante que manteve dois corações funcionando em um único paciente por algumas semanas — ou, mais precisamente, 45 dias.

A cirurgia inédita no mundo foi conduzida pelo hospital brasileiro para tratar a pressão alta no interior do pulmão de pacientes com insuficiência cardíaca congestiva (ICC) que necessitam de transplante de coração, mas que não podem fazê-lo justamente pela doença pulmonar já existente. Sem o novo procedimento do InCor, a maioria dos indivíduos passaria apenas por cuidados paliativos, sem terapias que pudessem reverter o quadro.

Com problemas cardíacos, paciente vive com dois corações, por alguns meses, até a conclusão do transplante (Imagem: Reprodução/Javier Matheu/ Unsplash)

Com o coração doado (e transplantado), o organismo pode reverter a pressão alta pulmonar, enquanto o coração doente — que está mais apto a trabalhar com a sobrecarga da pressão alta do pulmão — dá suporte ao coração recentemente implantado. Por 45 dias, os dois órgãos trabalham em conjunto, garantindo a recuperação da pessoa.


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Inclusive, os dois corações trabalham simultaneamente, ou seja, apresentam batimentos cardíacos, pulsação e funções circulatórias específicas. O primeiro paciente a passar por esta cirurgia experimental foi o professor universitário Lincoln Paiva, de 55 anos. Ele passou cinco meses internado, durante o pós-operatório e, hoje, já está em casa com um único coração. No caso, permaneceu o mais novo.

O paciente que viveu com dois corações

Vítima de infarto em fevereiro de 2020, Lincoln passou por uma série de procedimentos médicos, como a implantação de stents no coração. Com a pandemia da covid-19, o tratamento foi suspenso e, quando retornou, estava com insuficiência cardíaca congestiva (ICC) grave nível 3. Aqui, vale explicar que, quando o paciente chega ao nível 4, a doença é considerada terminal.

Nesse momento, os médicos responsáveis pelo caso já alertaram sobre a possibilidade de que, no futuro, o paciente poderia precisar de transplante. Só que o quadro piorou em poucos meses e, em junho de 2021, Lincoln foi diagnosticado com hipertensão pulmonar associada à ICC e precisou ser internado.

Hipertensão pulmonar

A hipertensão nos pulmões é uma doença grave com alta mortalidade — mais da metade dos pacientes morrem ao cabo de dois anos e meio, se não forem tratados. Quando está associada à insuficiência cardíaca grave, que demanda transplante de coração como terapia de sobrevida, ela é ainda mais agressiva. Inclusive, este é um fator de contraindicação para a cirurgia.

Era exatamente essa a situação que se encontrava o paciente, quando soube que o médico Fábio Gaiotto — cirurgião cardiovascular do InCor que criou a técnica — estava pronto para experimentar uma alternativa até então inédita para reverter o quadro. Em julho deste ano, o paciente passou pela primeira etapa da cirurgia de dois corações e, em outubro, a segunda fase em que seu coração doente foi removido.

“Você vai progredindo [após a cirurgia] e vai entendendo, até que percebe que está com dois corações mesmo. A primeira vez que eu vi o ecocardiograma, vi os dois corações batendo. Aquilo era muito impressionante não só para mim, mas para maioria dos médicos, enfermeiros, equipe de exames laboratoriais”, comentou o paciente.

Como funciona o transplante com dois corações?

Com sucesso, InCor realiza o primeiro transplante em que o paciente vive com dois coração até a estabilização do quadro (Imagem: Divulgação/InCor)

Para entender o procedimento inédito: o novo coração é conectado em artérias e em partes do coração antigo, como um enxerto. A função do novo órgão é auxiliar na diminuição da pressão arterial no pulmão doente, de forma semelhante ao que costuma acontecer com os ventrículos artificiais de última geração — com custo bastante elevado e de difícil acesso. Nessas circunstâncias, o coração doente também sofre alterações de fluxo, para se adaptar ao novo sistema e facilitar as manobras da segunda cirurgia.

O paciente respondeu bem ao tratamento e, com três meses da primeira etapa, a pressão interna do seu pulmão estava normalizada, dando sinal verde para a realização da segunda fase do tratamento. Inicialmente, era previsto que a primeira etapa duraria até seis meses, superando as expectativas da equipe.

Na segunda etapa, os médicos precisaram retirar o coração doente, colocando o órgão sadio doado na posição normal — onde antes estava o outro. Segundo a equipe, essa manobra exige uma rotação de 180 graus do órgão para colocá-lo na nova posição, além de suturas minuciosas de suas artérias e veias, de maneira a restabelecer o fluxo natural da circulação cardiopulmonar. Hoje, o paciente voltou a ter uma vida normal e está em casa.

Antecedentes do transplante inédito

É importante explicar que a técnica de utilização de dois corações conjugados já existe no mundo e é chamada de heterotópica. No entanto, quando usada em caráter permanente, ela não proporciona bons resultados para a sobrevida dos pacientes.

“O que fizemos foi desenvolver uma variante técnica dessa cirurgia, de maneira que, num primeiro momento, o coração doado seja usado como terapia para a hipertensão pulmonar e, ao final, substitua o coração doente”, explicou o cirurgião cardiovascular.

“O tratamento da hipertensão pulmonar é complexo. Em alguns casos, a única terapia possível é através de um ventrículo artificial, que é um equipamento de difícil acesso no mundo pelo seu alto custo. Por isso desenvolvi uma técnica que pode ser uma saída para esses pacientes e nós, como centro de pesquisa, conseguiremos ensiná-la para outros médicos no Brasil e no mundo”, completou Gaiotto.

Leia a matéria no Canaltech.

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