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Crítica O Soldado que Não Existiu | A anatomia da mentira


Uma mentira bem contada tem que ser convincente — de modo que não apenas a história em si precisa ser verossímil, mas todo o seu entorno também. Uma boa mentira é aquela em que a ficção é tão ou ainda mais interessante que a ficção. São esses detalhes aparentemente irrelevantes que fazem com que o falso ganhe seu verniz de realidade.

E O Soldado que Não Existiu mostra justamente como verdade e mentira caminham juntos a ponto de se confundirem. Para isso, o novo longa da Netflix se apoia em um dos capítulos mais icônicos e peculiares da história da Segunda Guerra Mundial para mostrar não apenas como uma farsa pode salvar vidas, mas como elas também dizem muito sobre quem a está contando.

O filme estrelado por Colin Firth (O Discurso do Rei) e dirigido por John Madden (O Excêntrico Hotel Marigold) retrata a Operação Carne Moída, uma ação de contraespionagem orquestrada pelo Reino Unido para dissuadir as tropas nazistas sobre um ataque na Sicília, convencendo as forças de Hitler de que o desembarque aconteceria na Grécia. Para isso, eles plantaram informações falsas em um cadáver jogado ao mar em um plano tão absurdo quanto improvável.

E é em torno dessa ideia que beira à loucura que O Soldado que Não Existiu gira, trazendo duas perspectivas bem distintas. Nas palavras de seu próprio narrador, o oficial e futuro escritor Ian Fleming — sim, o pai de James Bond foi um dos responsáveis pela operação e é parte fundamental do longa —, é a guerra invisível da espionagem e de construir mentiras tão convincentes quanto à própria realidade contra a guerra real, de ações e consequências com vida em jogo.

No meio dessa balança, temos um longa bastante competente e com uma história muito interessante, mas que se perde dentro daquilo que ele próprio quer ser.

Construindo a farsa

Essa diferenciação entre as duas guerras retratadas por O Soldado que Não Existiu não é algo que fica apenas no discurso, mas que se manifesta no próprio filme de forma até pouco sutil. Enquanto a primeira metade é inteiramente dedicada à construção desse falso oficial e de toda a vida que ele nunca teve, a segunda parte é uma típica história de espionagem de guerra.

Colin Firth vive o oficial britânico Ewen Montagu, a grande cabeça por trás do plano improvável (Imagem: Divulgação/Netflix)

E a transição de uma parte para a outra é tão brusca que a sensação é que são filmes diferentes colados em uma mesma película. Ainda que isso não seja necessariamente algo ruim, é algo que não só causa estranhamento no ritmo geral da trama como ainda causa um certo incômodo pelos dois tons em si não conversarem entre si.

Isso porque a primeira parte é muito mais intimista e focada em seus personagens do que no conflito ou mesmo nas minúcias do plano em si. Tanto que, em apenas 10 minutos de trama, a Operação Carne Moída já é estabelecida e não há muitas firulas sobre como cada um dos integrantes foi parar naquela missão quase suicida.

Esse início mais acelerado serve para deixar claro que o foco de O Soldado que Não Existiu não é exatamente a operação em si, mas as relações surgidas em torno desse falso oficial. É a partir do momento em que os agentes decidem pegar o corpo de um indigente e transformá-lo no fictício major William Martin que vemos o roteiro se desenrolar e seus personagens serem desenvolvidos.

A primeira metade do filme é muito menos sobre o plano e mais sobre como ficção e realidade se misturam na mentira (Imagem: Divulgação/Netflix)

Por um lado, essa abordagem pode frustrar quem esperava uma história de guerra ou mesmo de espionagem mais tradicional. Ainda que vários elementos desses gêneros estejam presentes, eles não são o foco dessa parcela inicial do longa.

E, nesse ponto, o título nacional é muito mais claro sobre as intenções do roteiro do que o original. O nome O Soldado que Não Existiu deixa bem mais claro que o foco é a construção desse indivíduo do que Operation Mincemeat, que dá realmente entender que a ideia é se aprofundar nas minúcias da operação, o que nem sempre é bem feito por aqui.

De qualquer forma, é a partir dessa anatomia da mentira em torno de William Martin que conhecemos os responsáveis pela farsa. Do oficial Ewen Montagu (Firth) e seu rígido senso de dever aos devaneios sonhadores de Jean (Kelly Macdonald), o roteiro costura muito bem a ficção que eles precisam criar com a realidade que esses personagens teimam em não apresentar ao público e nem aos seus colegas.

Kelly Macdonald é a melhor coisa do filme, embora seu triângulo amoroso seja o calcanhar de Aquiles da trama (Imagem: Divulgação/Netflix)

Em um ambiente repleto de protoespiões e de diretrizes de sigilo, ninguém tem espaço ou mesmo liberdade para dividir sobre seus dramas e aflições e cabe à narrativa que eles criam para seu personagem mostrar ao público o que cada um deles pensa e sente. É a partir da falsa vida de William que descobrimos o quanto Ewen vive um casamento infeliz e é em sua falsa noiva Pam que Jean projeta seus sonhos de final feliz interrompidos pela guerra.

Esse é um artifício que não chega a ser original, mas que é muito interessante e que funciona muito bem. A partir do momento que você entende o quanto William e Pam falam sobre todos os agentes ligados à Operação Carne Moída, o filme se torna muito mais interessante e envolvente.

O grande ponto, porém, é que essa é uma estrutura que chama a atenção muito mais pela forma do que pelo conteúdo. Não há como negar que essa mistura de real e ficção chama a atenção e te faz querer saber mais sobre esses personagens, mas rapidamente fica evidente o quanto a mentira é mais interessante que a verdade. Isso porque o drama dos agentes não funciona da forma que deveria.

A primeira metade do filme funciona muito mais pela pela sua forma do que pelo conteúdo (Imagem: Divulgação/Netflix)

O Soldado que Não Existiu tenta emplacar um triângulo amoroso que não engata em momento algum. O interesse de Charles Cholmondeley (Matthew Macfadyen) em Jean é evidente, mas não fica claro em momento algum que ela se apaixonou por Montagu e muito menos que o sentimento do oficial é recíproco. Tanto que, na hora que tudo é posto à mesa, soa tão surpreendente quanto forçado.

O roteiro até tenta dar sinais disso ao fazer paralelos entre Montagu e Jean à medida que eles projetam seus sentimentos e desejos em William e Pam, mas é algo tão à margem da história que está sendo contada que não encaixa.

Essa falta de química na construção do triângulo é tão real que o amor não correspondido de Cholmondeley soa mais como um alívio cômico do que como elemento de tensão. Por isso mesmo, todas as tentativas de expor seu ciúme ficam ridículas, pois é algo que não leva a história para lugar algum — da mesma forma como nada dessa relação rende algo.

Espiões em ação

A impressão que fica é que o diretor percebeu o quanto todo esse drama novelesco não leva as coisas a lugar algum que a segunda metade de O Soldado que Não Existiu parece ser um filme completamente diferente. A partir do momento que o corpo do falso major é jogado na água, esse drama de época dá lugar a uma tradicional história de espionagem cheia de planos mirabolantes e reviravoltas, sobrando pouco espaço para aprofundar e resolver as tensões criadas até então.

A partir da segunda metade, O Soldado que Não Existiu se volta para um filme de espionagem tradicional (Imagem: Divulgação/Netflix)

Por um lado, isso é muito bom. Ao deixar de lado os romances não correspondidos, o filme volta suas atenções para a guerra real e para as incertezas do plano, que tem tudo para dar errado. E ainda que a gente saiba que tudo vai dar certo — não existe spoiler nos livros de História —, a forma como os fatos são apresentados faz com que você duvide até o último instante do sucesso desse plano maluco, ainda mais quando mil pequenos fatores precisam estar alinhados.

E mesmo que a participação de Fleming dentro do contexto geral seja bem pontual, o modo como o ator Johnny Flynn é usado para narrar e trazer um tom mais dramático à espera pela ação é algo que funciona muito bem. Não só por sabermos quem é o autor e como parte de toda aquela operação vai servir para criar o espião mais famoso do cinema, mas porque a sua narração serve para trazer um verniz de ficção para tornar a realidade mais interessante.

A participação de Ian Fleming é pontual, mas marcante (Imagem: Divulgação/Netflix)

O único grande problema dessa segunda metade é mesmo a mudança radical de tom. É um cavalo de pau narrativo tão grande que é impossível não estranhar a virada. E isso deixa mais claro o quanto o triângulo amoroso da primeira parte do filme não funciona. É aqui que essa trama deveria alcançar seu clímax, mas é algo tão pouco interessante que ver a perícia de um cadáver em uma cidadezinha da Espanha se torna mais atraente do que saber quem gostava de quem no fim das contas.

Nem tudo é uma história de amor

A grande mentira que Hollywood sempre nos contou é que tudo é sempre uma grande história de amor. Sempre há um mocinho e uma mocinha prontos para se conhecerem e se amarem, independente da situação em que estão inseridos. E por mais que essa seja uma farsa que já compramos e aceitamos, O Soldado que Não Existiu prova que nem sempre esse verniz funciona.

Ainda que Kelly Macdonald seja a melhor coisa do filme com uma Jean sensível e muito carismático, todo esse arco envolvendo paixões não correspondidas e sentimentos proibidos é algo que não é mais interessante do que a mentira que eles mesmos criaram para seu cadáver e tampouco se encaixa para a trama de guerra e espionagem que vem em seguida.

É algo que fica à deriva no mar do clichê hollywoodiano e que se prova inteiramente desnecessário. A história real por si só já é impressionante o suficiente para virar filme — um dos raros casos em que a realidade é mais interessante do que a ficção pode ousar ser.

O Soldado que Não Existiu está disponível no catálogo da Netflix.



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